lundi, juin 02, 2008

SCISSOR SISTERS -

mardi, avril 22, 2008

talvez amanhã

um dia sentamo-nos lado a lado num avião e vai ser diferente, vais passar acreditar em todas as historias que te contei e saber que não são inventadas.
um dia corro os olhos pelas quadriculas do "formulário de totoloto" e estão lá pelo menos cinco números, se correr bem seis, telefono-te a meio do dia, tu atendes assustada, não por ser surpresa que te telefone assim a troco de nada, mas porque o susto e o suspense ficam bem em qualquer história, atendes e eu digo-te muito rápido faz as malas, e tu hás de me perguntar meio preocupada se não tenho pago o empréstimo da casa e eu digo que não, não se trata disso, digo que fizemos um cinco no totoloto, apesar de infelizmente não ter acertado uma no euro milhões, estamos quase ricos de dinheiro e de felicidade.
E depois um dia sentamo-nos lado a lado num avião e vai ser diferente.

lundi, avril 23, 2007

A casa da memória e o vazio de ti


Ela chamou-o, disse, pelo menos, cem vezes o nome, repetia-o diariamente para não se esquecer de si, sim de si, toda a sua vida tinha sido ele e quando se foi, sentiu literalmente perdidas letras do seu nome.

A casa, que lhe pareceu enorme a primeira vista, que foi ficando pequena com a chegada dos filhos, a casa estava agora estranhamente abandonada, imensa em solidão, em dias que passam tão devagar e em silêncios que se prologam sem pressa. Teve medo, sentiu a cama fria umas quantas noites, a mesa vazia e as panelas sempre demasiado cheias.
E se escorregar na banheira, se cair ao passar por aquele tapete, se adormecer e nunca mais acordar, se morrer sozinha e for apenas notada pelo cheiro.

Pergunto-te, agora que já não digo o teu nome todos os dias, o que vou fazer nesta casa cheia de memorias e vazia de ti?


mardi, janvier 23, 2007

gravitate 2

Esperou até ao ultimo momento, nunca fez o teste não precisou faze-lo, sabia-o, sabia-o como se tivesse sido planeado, talvez porque todo o corpo a avisava, todo o corpo lhe emitia sinais, lhe indicava com luzes enormes, em laranja sempre intermitente, que devia ter cuidado, e mesmo assim esperou até ao ultimo momento e nunca, nunca fez o teste, não precisava, sabia-o.

Esperou como se adiasse um problema, como se tudo se resolvesse por si, todos os dias olhava, procurava, sempre com esperança que o dia nascesse vermelho, sempre na esperança que algo lhe dissesse que tinha parado, simplesmente desaparecido, não contou a ninguém, guardou o segredo para si, carregou-o como um fardo, e engolia-o mais e mais, mesmo quando as náuseas matinais quase a obrigavam a cuspi-lo.

E tudo se transfigurava, parecia mesmo que ele queria que se soubesse, que grafitava nos locais mais públicos, a palavra proibida, como aquele amo-te Ana, escrito no muro da loja de ferragens mesmo em frente a casa dos pais, que ela fez tudo para esconder. Mas o seu segredo tinha coração e fazia como naquela história do Poe, assombrava, o batimento era a lembrança constante de que não se tinha simplesmente evaporado.

Estava diferente, toda a gente lhe dizia isso, sabia que não seria necessário nenhum detective profissional para descobrir o que se passava, não tardava e iam começar a notar, tinha de contar, tinha de desfazer o segredo, tinha de o partilhar como arrependida antes que fosse descoberta como culpada, mas era natal, não podia acabar com o natal, mesmo sabendo que isso era uma desculpa e que qualquer desculpa lhe servia, para adiar, para adiar os dias no calendário.

A mãe descobriu, nunca lhe tinha conseguido esconder nada na vida, e choraram, e a mãe teve medo e a Ana não, estava calma, parecia que já o tinha feito dezenas de vezes, a mãe chegou a perguntar-lhe isso, como podia não estar nervosa, como tinha conseguido guardar aquele segredo tantos meses, disse-lhe quão perigoso e caro, seria resolve-lo agora, mas tinha de ser.

E teve, depois passou a calma, e todos os lugares deixados vagos, foram preenchidos, com culpa, culpa.

mardi, décembre 12, 2006

gravitate

Doía-lhe o corpo todo, alias a dor era tão forte que até podia dizer que lhe doía a alma, não estivesse já essa delicadamente, meio as escondidas, a separar-se do corpo. Não é supostamente assim que acontece, o corpo morre e a alma vive, plana sobre a visão da morte. Será feita daquele papel autocolante que se pode colar, a um corpo após o outro? Não perde o poder de fixação? Não vai deixando vestígios em todos os corpos por onde passou?
Tudo perguntas que se devia ter feito antes, quando tinha tempo, quando não lhe doía o corpo, e alma (fugitiva com a visão da morte) quando não lhe doía a vida, imaginar a vida como um liquido muito forte, cheio de pedaços, que é difícil de escoar, que se agarra a tudo, que não quer sair, mas que acaba por obedecer a gravidade e ser puxado para baixo.

Doía-lhe o corpo, os pensamentos idiotas, o de ja vu, ver-se ali naquela cadeira, com aquele lenço, olhar-se ao espelho e descobrir com uns olhos que não eram dela, um rosto apenas ligeiramente conhecido. Como toda a vida imaginou, premonições seriam? Toda a sua vida tinha imaginado, que ficaria sem cabelo, que encovaria o rosto, e encontrava beleza nisso, todos lhe diziam deves estar parva, a sua mãe batia três vezes na madeira de cada vez que ela lhe falava nisso, um dia ouviu alguém dizer (nem ela nem eu nos lembramos onde), cancro todos o temos, a diferença está no facto de alguns já terem consciência disso e outros não, pensou que só podia ser verdade.

De vez em quando, desde sempre, que se via, de lenço, sempre que encontrava uma mulher assim olhava-a nos olhos, sem medo, nunca teve medo, toda a sua vida imaginou que ficaria sem cabelo e encontrava beleza nisso, sem medo, nunca teve medo, agora tinha.

jeudi, novembre 30, 2006

sem nome 3


samedi, octobre 14, 2006

She


E é estranho ver-te dormir, nunca me senti capaz de conter o egoísmo, de deixar dormir, de ver dormir, de não sentir que o sono nos afasta, que o sono te rouba.

Sento-me aqui, junto a janela e fico a olhar-te, num altruísmo que desconhecia, fico aqui a partilhar-te com o que sonhas, encosto a cabeça, e tento mexer-me o mínimo, faço tudo com uma calma ensaiada para que não me oiças, porque não te quero perturbar e ao mesmo tempo, ao mesmo tempo há uma batalha aqui, há mortos, feridos, militares escondidos em valas, gás mostarda, e aves que morrem antes dos homens, aqui dentro há uma guerra, digna do melhor e do pior, sou exagerado eu sei, mas sinto que esse tempo que dormimos não é realmente nosso.

Faço de conta que leio, finjo que não conto os minutos, que não paro do respirar a cada movimento teu, que não penso é agora, é agora.


Acho que já te disse, um dia, os apaixonados não deviam dormir.